Blog · Pós-parto
Dor na relação após o parto: por que acontece e como tratar
Por Dra. Lorena Vilela · Ginecologista · CRM 52-126446-0 · RQE 44302
"Voltar a ter relação depois do parto virou motivo de medo? Você não está sozinha, e não precisa aprender a conviver com a dor."
O bebê chegou, a rotina mudou e, quando a vida íntima tenta voltar, aparece uma dor que ninguém tinha avisado. Muitas mulheres se calam por vergonha ou por acreditar que "é assim mesmo depois que se tem filho". E aí a dor vira medo, o medo vira distância e o casal se afasta em silêncio.
Então vamos deixar claro desde já: dor na relação depois do parto é comum, mas não é normal. Tem causa, tem nome (dispareunia) e, na imensa maioria das vezes, tem tratamento. Você não precisa aprender a conviver com isso.
Por que a relação passa a doer depois do parto
Raramente existe uma única causa. Na maioria das vezes o quadro é multifatorial, ou seja, alguns fatores acontecem ao mesmo tempo e se somam. Os mais comuns são:
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Queda hormonal da amamentação, que reduz o estrogênio e resseca a região íntima
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Cicatriz de episiotomia ou de laceração, que pode ficar sensível ou aderida
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Tensão dos músculos do assoalho pélvico, que se contraem em defesa da dor
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Pouca lubrificação, muitas vezes ligada ao cansaço e à queda do desejo
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Fatores emocionais: privação de sono, sobrecarga, ansiedade e o medo antecipado da dor
E aqui vai a parte mais importante: nenhuma mulher precisa "aceitar e aguentar". Cada um desses fatores tem tratamento.
O papel da amamentação
Durante a amamentação, o corpo mantém o estrogênio baixo, num estado parecido com o da menopausa. O resultado é bem concreto: a mucosa íntima fica mais fina, menos elástica e com pouca lubrificação natural. Por isso a penetração pode arder, incomodar ou doer, mesmo com desejo presente.
Isso não significa que você precise escolher entre amamentar e ter uma vida íntima confortável. O ressecamento da amamentação tem tratamento simples, local e compatível com quem amamenta. Não é preciso esperar o desmame sofrendo.
Leia também: ressecamento vaginal — tratamento com e sem hormônio.
Quando procurar ajuda
A dor persiste — passou a quarentena, seu corpo já cicatrizou e a relação continua doendo
Você começou a evitar — o medo da dor já está afastando você da sua vida íntima e do parceiro
Há ardência ou sangramento — dor em pontos específicos, ardência ou pequenos sangramentos após a relação
O desejo não volta — meses depois, a libido segue muito baixa e isso incomoda você
Não existe cronômetro certo
A famosa quarentena serve para a cicatrização, mas não é uma ordem para retomar a vida íntima no dia 41. O retorno respeita o seu conforto físico e emocional. Sem desejo e sem lubrificação, não há pressa, há cuidado.
Como o tratamento é feito
Como a causa costuma ser multifatorial, o tratamento também é. O primeiro passo é sempre investigar: escutar sua história, examinar a região com cuidado e identificar o que está pesando mais no seu caso. A partir daí, o plano é individualizado e pode combinar:
Estrogênio vaginal — trata o ressecamento localmente, com absorção mínima e compatível com a amamentação
Fisioterapia pélvica — relaxa e reeduca os músculos do assoalho pélvico que se contraem em defesa da dor
Cuidado com a cicatriz — tratamento de cicatrizes sensíveis ou aderidas de episiotomia e laceração
Tecnologias íntimas — radiofrequência e outros recursos que melhoram hidratação, elasticidade e conforto
Acolhimento do emocional — reconhecer o cansaço, a sobrecarga e o medo, e, quando útil, contar com apoio multidisciplinar
Tratamento não é receita de bolo! O que funciona para uma mulher pode não ser o ideal para outra. Por isso a avaliação vem sempre primeiro.
Os grandes mitos!
"Depois que se tem filho é assim mesmo"
Não é. Ter tido um bebê não é uma sentença de dor para o resto da vida íntima. É comum sentir desconforto nos primeiros meses, mas dor que persiste é sinal de que algo precisa ser avaliado e tratado.
"É só usar um lubrificante e resolver"
O lubrificante ajuda no momento, mas não trata a causa. Se há ressecamento hormonal, cicatriz sensível ou tensão muscular, o problema volta. Tratar a origem é o que devolve o conforto de verdade.
"Falta de vontade é falta de amor"
Cansaço extremo, hormônios em queda e uma rotina nova mexem com o desejo, e isso não tem nada a ver com o sentimento pelo parceiro. É biologia e contexto, não falta de amor. E também merece cuidado.
"É coisa da minha cabeça"
A dor é real e quase sempre tem base física, ainda que o emocional participe. Nomear o que acontece já é o primeiro passo para tratar. Não é frescura nem invenção.
Perguntas frequentes
Quanto tempo depois do parto posso voltar a ter relações?
O comum é aguardar cerca de 40 dias (quarentena), quando o útero e eventuais pontos já cicatrizaram. Mas não existe um cronômetro: o retorno depende do seu conforto físico e emocional. Sem desejo e sem lubrificação, não há pressa.
A dor some sozinha quando eu parar de amamentar?
Muitas vezes o ressecamento melhora quando os níveis hormonais se normalizam após o desmame. Mas não é preciso esperar sofrendo: o ressecamento da amamentação tem tratamento simples e seguro, compatível com quem amamenta.
Posso usar estrogênio vaginal se estou amamentando?
Em geral sim. O estrogênio vaginal age localmente, com absorção mínima, e costuma ser compatível com a amamentação. A indicação e a dose são sempre definidas na consulta.
A cicatriz da episiotomia ou da cesárea pode causar a dor?
Sim. Cicatrizes podem ficar sensíveis, aderidas ou formar pontos de dor. Existem tratamentos específicos para a cicatriz, da fisioterapia pélvica a procedimentos, que melhoram muito o quadro.
É normal não sentir vontade depois que o bebê nasce?
É extremamente comum. Cansaço, alterações hormonais, mudanças no corpo e a nova rotina afetam o desejo. Não é frescura nem falta de amor. Faz parte do cuidado ginecológico acolher isso e investigar o que pode ser tratado.
Voltar a se sentir bem também é cuidar de você
A consulta é um espaço de conversa, exame, escuta e planejamento. Te espero na clínica.
Agendar pelo WhatsAppArtigo de caráter informativo, não substitui consulta médica. Revisado por Dra. Lorena Vilela, Ginecologista · CRM 52-126446-0 · RQE 44302 · Av. Visconde de Pirajá, 414, sala 1017 - Ipanema, Rio de Janeiro.